terça-feira, 26 de agosto de 2008

Prazer à frente do saber, estética à frente da ética

Entre as explicações para a crise de valores contemporânea, podemos colocar como fundamental o processo corrente de padronização das condutas humanas. É o que diz o psicanalista Charles Melman, em entrevista a Revista Isto é (http://www.terra.com.br/istoe/1824/1824_vermelhas_01.htm - vale a pena ler na íntegra), que alerta para o fato de que desprezamos cada vez o mais o pensar, em detrimento do prazer imediatista. Ele é autor do livro “O homem sem gravidade: gozar a qualquer preço”, no qual defende que como parte do “processo de ser aceito socialmente”, a juventude de hoje está anestesiada, deixando cada vez mais de lado seu papel histórico de contestação social e luta contra as injustiças.
Ao invés da valorização da cultura local, assiste-se a uma permanente imitação de costumes, de modo que a idéia de diversão juvenil de qualquer canto longínquo do planeta, simplesmente reproduz as preferências emanadas dos grandes centros e difundidas pela comunicação de massa.
A superexposição celebrada pelo fenômeno dos reality shows, a difusão permanente de uma erotização excessiva em videoclipes, novelas e filmes comerciais, uma espertalhona e lucrativa imposição das grandes corporações em termos de “tendências” de moda, cosméticos e outras artificialidades, tudo isso aliado ao mito do padrão de beleza único (e inatingível), atinge em cheio às inseguranças e incertezas da maioria dos jovens, ansiosos por participarem de modo “bem sucedido” da vida social que os envolve e assim serem aceitos e reconhecidos.
A mídia, através do medidor infalível de audiência, manipula deliberadamente as mentes, buscando sempre transformar as necessidades em desejo e criando a cada dia novas necessidades, gerando um consumismo infindável e degradante. As crianças, segundo Melman, estão entre os mais atingidos por essa manipulação, pois menos conscientes dos verdadeiros objetivos por trás dos anúncios atrativos (se bem que muitos adultos neste sentido aparentam continuar na infância).
Na ausência de valores sólidos, gerada pela decadência dos ideais religiosos (ideais, independentemente das instituições) e rechaço cada vez mais prematuro dos jovens à família, que consideram não entender o seu mundo e as pressões a que estão sujeitos, o que importa é chamar a atenção e despertar interesse, seja sendo o melhor entre os iguais (os “populares”), seja apelando para a diferenciação radical de condutas (os “rebeldes”), o que se por um lado gera uma massa de maria-vai-com-as-outras em torno dos pops, por outro cria o isolamento dos grupos dissidentes, compartimentados em visões de mundo extremas, que os privam do diálogo sadio de idéias e de fazer auto-crítica de suas posturas. E os que não estão nem de um lado, nem de outro, se contentam em passar por “normais”, diminuindo sua singularidade, deixando de desenvolver seu potencial do modo que mais lhe agrade, pois não encontram incentivo, apenas o julgamento que remonta à padronização imposta culturalmente e reproduzida socialmente.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Caminhando contra o vento...

Amigos,
Perdoem a demora para voltar a escrever. Garanto que falta de vontade não é. Mas enfim, aqui e agora... cá estou.

Por enquanto, quero transcrever um trecho de um livro que li recentemente, e que achei bonito:

"O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe temp, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tdo que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é."

(do livro "Lavoura Arcaica" de Raduan Nassar)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Resenha: Manifesto da Transdisciplinaridade (Basarab Nicolescu)

Amigos, segue resenha que fiz dos primeiros capítulos do livro "Manifesto da Transdisciplinaridade", de Basarab Nicolescu, para a pós-graduação de docência no ensino superior pela FALEC. Tudo a ver com o último texto aqui postado, mas agora com embasamento científico. Aliás, refere-se justamente ao pensamento científico atual e seus desdobramentos.

Amanhã será tarde demais

No século XX, houve duas grandes revoluções. A revolução quântica e a informática. As duas poderiam mudar a forma de vermos o mundo. No entanto, o conhecimento quântico ficou restrito aos cientistas de ponta. E a informática, que poderia liberar tempo para que vivêssemos melhor, que poderia ajudar a espalhar o conhecimento pelo planeta, foi colonizada pelo comerciantes de plantão, e totalmente mercantilizada. A soma do conhecimento acumulado durante o século passado, é maior do que a soma de todo conhecimento alinhavado no decorrer de todos os outros séculos.
Mas como explicar que quanto mais conhecimento alcançamos, mais o sentido de nossa vida e morte seja desprezado? Será que o ser interior deve ceder espaço para o conhecimento científico, desvinculado de preocupações imediatas quanto ao nosso “melhor viver”?
Pela primeira vez na história, a humanidade se depara com uma possibilidade real de autodestruição. Mas como falar em paz quando ainda se tem tanta guerra? Milhões de mortos em nome de ideologias passageiras, e o homem continua insensível. Não avançamos quase nada nas grandes questões metafísicas, mas gastamos tempo e dinheiro esmiuçando a esfera puramente biológica, a exemplo das pesquisas sobre o patrimônio genético, etc., tudo em nome de que? Essa tecnociência desenfreada é hoje responsável pelo risco de extinção da espécie e destruição do planeta, obedecendo apenas à lógica da eficácia pela eficácia.
No entanto, junto com o potencial de autodestruição, o ser humano tem a opção de dar uma reviravolta na história e estabelecer o rumo de uma mutação positiva sem paralelos. “O desafio planetário da morte tem sua contrapartida numa consciência visionária, transpessoal e planetária, que se alimenta do crescimento fabuloso do saber.” Mas é preciso agir rápido, aqui e agora. Pois amanhã poderá ser tarde demais.

Grandeza e decadência do cientificismo

Os antigos conviviam bem com os Deuses e suas entidades mitológicas e metafóricas. Enxergavam uma realidade multidimensional interligada por leis cósmicas comuns que formavam a ordem cósmica.
A ciência moderna rompeu definitivamente com essa visão de mundo. Passou-se a estabelecer uma independência absoluta entre o indivíduo conhecedor e a realidade a ser conhecida. Galileu afirmou que a matemática era a linguagem comum entre Deus e os homens. Os postulados da física clássica, quais sejam: 1) a existência de leis universais, de caráter matemático; 2) a descoberta destas leis pela experiência cientifica; 3) a reprodutibilidade perfeita dos dados experimentais; estabelecidos por Galileu, Kepler, Newton, até chegar a Einstein, contribuíram para a instauração de um “paradigma da simplicidade” que se tornou predominante, pronto para servir à lógica do progresso.
A idéia primordial da física clássica é a idéia de continuidade, baseada no conceito de “causalidade local”, que significa que todo fenômeno físico pode ser compreendido por um encadeamento contínuo de causas e efeitos. Daí advém a idéia de “determinismo”, da previsão absoluta dos fenômenos por meio do cálculo das variáveis. Dessa forma, elevou-se a física à condição de “rainha das ciências” e surgiu a “ideologia cientificista”.
Se tudo podia ser calculado e previsto, e o universo não passasse de uma máquina, Deus poderia ser relegado à condição de simples hipótese. A transcendência do Universo foi subitamente jogada para o campo do irracional e da superstição.
Interessante notar como o formato do que se chama hoje ciência foi criado em um dado momento na história. É possível que essa criação tenha vindo como resposta ao misticismo e à opressão religiosa da Igreja durante a Idade Média. No entanto, começamos a perceber que o movimento pendular está agora no outro extremo, e já é hora de um reequilíbrio.
Na concepção cientificista, a natureza deve ser dominada e subjugada, sendo inclusive possível constatar nos escritos sobre o tema do século XIX, que os termos utilizados são repletos de alusões sexuais, o que daria um bom estudo psicanalítico. Uma das conseqüências é o ultraje machista vivido desde então pelas mulheres, já que a ideologia predominante consiste em conquistar, dominar, usar e abusar.
A filosofia de Marx tem como pressuposto esta física clássica. Assim, num mundo determinista e regulado por leis objetivas, não é difícil descartar a história e simplesmente pregar uma revolução social. Basta estabelecer as condições iniciais em nome do bem e da verdade para se construir uma sociedade ideal. O resultado dessa experiência, como sabemos, foram milhões de mortos.
No plano espiritual o impacto não foi menos grave: segundo Nicolescu, “A única Realidade digna deste nome era, naturalmente, a Realidade objetiva, regida por leis objetivas. Todo conhecimento, além do científico, foi afastado para o inferno da subjetividade, tolerado no máximo como ornamento, ou rejeitado com desprezo como fantasma, ilusão, regressão, produto da imaginação. A própria palavra ‘espiritualidade’ tornou-se suspeita e seu uso foi praticamente abandonado”.
Assim foi declarada a morte do homem. A objetividade como critério supremo da verdade transformou o sujeito em objeto, dando margem a todas as formas de exploração, manipulação, gerando um mal estar tal, que possibilitou a ocorrência das duas guerras mundiais. O pressuposto de toda essa mentalidade está na idéia da existência de um único nível de realidade, que foi desmontado pela física quântica.

Física Quântica e níveis de realidade

A mecânica quântica, a primeira guerra mundial, e a revolução russa ocorreram no mesmo período. É como se a eclosão de um período histórico, no campo do visível, fosse silenciosamente acompanhada pelo surgimento de uma nova forma de pensar.
O “quantum” descoberto por Max Planck, no começo do século XX, revolucionou a ciência por trazer a evidência da “descontinuidade”. Segundo Nicolescu, “os fundadores da mecânica quântica — Planck, Bohr, Einstein, Pauli, Heisenberg, Dirac, Schrödinger, Bohm, de Broglie e outros, que também tinham uma sólida cultura filosófica, estavam plenamente conscientes do desafio cultural e social de suas próprias descobertas”.
O conjunto de descobertas realizadas por esses cientistas colocou em cheque a objetividade científica clássica, que se baseia na crença da ausência de qualquer conexão não local. Um exemplo é a descoberta da “não separabilidade quântica”, descrita com rigor matemático pelo teorema de Bell, e que evidencia que existe uma certa coerência no Universo, uma unidade nas leis que asseguram a evolução do conjunto dos sistemas naturais.
Outra idéia da física clássica que caiu em derrocada é o determinismo, pois descobriu-se que os “quantuns” tem características ora de onda, ora de corpúsculo, não sendo nem um nem outro, mas os dois ao mesmo tempo, o que desafia a lógica clássica, do “isto OU aquilo”. Mas esse indeterminismo quântico não significa de modo algum acaso ou imprecisão.
A física quântica veio questionar também a separação entre sujeito e objeto. Ela demosntrou que a natureza participa do ser do mundo. A Realidade não é apenas uma construção social ou consenso de uma coletividade, um acordo intersubjetivo. Desse modo, faz-se necessário reconhecer o sentido ontológico da natureza.
As leis que regulam as entidades quânticas são radicalmente diferentes e inaplicáveis aos objetos macrofísicos e às leis que os governam. Mas ainda assim as duas coisas convivem, pois todo objeto macro (a ponto de ser visível) contém em si as estruturas quânticas, o que leva à dedução da existência de mais de um nível de realidade. Essa “descontinuidade” é catastrófica para alguém que a tente explicar à maneira clássica, mas de fato, nada tem de anormal, pois nós, sendo ao mesmo tempo micro e macro, somos a prova viva da veracidade dessa conclusão.
É curioso observar como, segundo o autor, a existência de diferentes níveis de Realidade foi afirmada ao longo da história, de variadas maneiras, por diferentes tradições e civilizações. A única diferença é que antes esta afirmação estava baseada apenas em dogmas religiosos, ou na exploração do universo interior.
Husserl e outros cientistas, explorando o campo da filosofia da ciência, descobriram a existência de diferentes níveis de percepção da realidade e de uma realidade multidimensional, mas foram marginalizados pela arrogância academicista e incompreendidos pelos físicos teóricos, cerrados em seu “especialismo” cartesiano.

Um bastão sempre tem duas extremidades

A lógica tradicional trabalha com “pares de contraditórios mutuamente exclusivos” (“A” e “não-A”). Uma terceira possibilidade, “T”, onde os dois axiomas “A” e “não-A” conviveriam, não é considerada possível, ao que se dá o nome de “terceiro excluído”.
Ocorre que a física quântica trouxe uma nova lógica, não compatível com esse simplismo. Pela lógica quântica, que convive com a lógica clássica, algo pode ser uma coisa “E” outra ao mesmo tempo. Um exemplo seria o tempo, que o homem tenta materializar por uma simples “linha do tempo”. Acontece que o presente não é algo separado e diferente do passado e do futuro. Como disse Santo Agostinho, o tempo só é tempo “porque está a ponto de deixar de ser”. Enfim, o pensamento é impotente para compreender a idéia de tempo. A Vida é mais do que um mero objeto no tempo e no espaço, e tudo indica que a Natureza não é um livro morto que está a nossa disposição para ser decifrado, mas um livro vivo, sendo escrito de forma contínua e incessante.
Lupasco veio demonstrar que existe uma lógica do “terceiro incluído”, e que ela é uma lógica que pode inclusive ser formalizada, obedecendo ao “princípio da não-contradição”. Essa lógica é plenamente possível quando se pensa na realidade de modo multidimensional. “A” e “não-A” não podem conviver, em uma mesma dimensão de realidade, com “T”. Mas esse par pode se ligar a “T”, se ele se situa em outro plano, em outra dimensão (no livro consta toda a explicação científica de como se opera esse fenômeno).
A lógica do “terceiro excluído” gera conflitos nos campos social e político. Cria dicotomias, como direita OU esquerda, bem OU mal, homens OU mulheres, ricos OU pobres, brancos OU negros, etc. Elimina a complexidade inerente ao ser humano e à natureza.

O surgimento da pluralidade complexa

A lógica binária clássica, que divide as disciplinas em “científica” e “não-científica”, além de se defrontar com o surgimento de novas lógicas, entre elas a do terceiro incluído, e com o aparecimento de diversos níveis de realidade, recebe seu golpe de misericórdia com o surgimento da “complexidade”.
O baralho das disciplinas, com um número crescente de cartas, é jogado pro alto e pulverizado, numa explosão que revela a artificialidade de tais divisões. Pois a complexidade promove um big-bang disciplinar. Não se trata apenas de se fazer um diálogo entre as disciplinas estanques. Mas de perceber sua diluição.
Podemos citar como exemplo as artes. Por uma estranha coincidência, a arte abstrata aparece ao mesmo tempo que a mecânica quântica. O sentido desaparece em proveito das formas. O rosto pintado de forma precisa, no Renascimento, se decompõe, até chegar a quase não parecer rosto.
A complexidade social é a forma visível da complexidade multidimensional que se espalha por todos os campos do conhecimento. O ideal de uma sociedade justa, baseado numa “ideologia científica”, que prega a eficácia pela eficácia, faz com que se acentue a crise entre individual e coletivo. E como esperar harmonia social com a aniquilação do ser interior?
Mas a complexidade é uma formulação teórica, que reside apenas na mente “ou” é um estado de coisas, um atributo da própria natureza? Uma coisa “e” outra. Ela é demonstrada por equações e modelos, mas também verificável experimentalmente. A física e cosmologia quânticas sugerem que, por mais atordoante que seja, o macro e o micro possuem uma incrível coerência. A única coisa que não se adequa a essa harmoniosa coerência é a nossa visão de mundo. Não é de se estranhar, já que o indivíduo fora declarado morto.

Uma nova visão de mundo: a transdisciplinaridade

A história nos mostra que, uma grande defasagem entre as necessidades de desenvolvimento de uma sociedade e a mentalidade predominante dos atores sociais, é o prelúdio da queda de uma civilização. Ou seja, um sério sinal de decadência de uma sociedade, ocorre quando os conhecimentos que vão sendo acumulados pela sociedade parecem não ser absorvidos e utilizados adequadamente pelos indivíduos que a compõe. Não é difícil observar como estamos passando por esse processo, pois o acúmulo de conhecimento no último século foi sem precedentes, e denota-se uma dificuldade do homem em adaptar sua mentalidade a esses novos saberes.
O pensamento clássico traz duas “soluções”: uma “revolução social” ou o retorno a uma “idade de ouro”. A primeira já sabemos no que deu, e a tal idade de ouro ainda não foi tentada, por um motivo muito simples: que idade foi essa? Ademais, uma “revolução interior”, para se espalhar, deveria necessariamente advir de uma dogmatização, o que não a diferenciaria da primeira “solução”. Aliás, temos visto fundamentalismos com base nesse argumento, e o resultado não é nada animador.
Para que as mentalidades se adequassem aos saberes disponíveis, precisaríamos de pessoas capazes de dialogar com agilidade entre as diversas disciplinas. Mas no âmbito desta super-especialização vigente, isso se torna cada vez mais difícil. Nem os super-computadores podem resolver o problema das diferentes linguagens científicas e a impossibilidade do conhecimento aprofundado, pelo homem, de todas elas. Por outro lado, a mera reunião de super-especialistas faz com que eles simplesmente não se entendam, ou que “puxem a sardinha” sempre para sua área de especialização. Precisamos de líderes que tenham capacidade de ao menos levar em conta as diversas facetas do problema a ser examinado.
Transdisciplinaridade não é pluridisciplinaridade, nem interdisciplinaridade. A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma mesma disciplina, por várias disciplinas ao mesmo tempo. Por exemplo, um quadro pode ser estudado pela ótica da história da arte, em conjunto com a da física, da química, da história das religiões, da história da Europa e da geometria. A interdisciplinaridade diz respeito à transferência de métodos de uma disciplina para outra, o que às vezes acaba por gerar mais disciplinas avulsas.
A transdisciplinaridade diz respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento. Mas o que estaria entre, através e além das disciplinas? Para a lógica clássica, nada. Para ela, a transdisciplinaridade seria um absurdo, pois não tem objeto definido. Mas para a transdisciplinaridade, a física clássica não é absurda, apenas restrita.
Ora, com o advento da física quântica, o espaço entre as disciplinas está cheio, assim como o vazio quântico está cheio de possibilidades (basta lembrar que o núcleo de um átomo está para seu tamanho total, como uma bola de futebol, no centro do campo, está para o estádio inteiro, o resto é "vazio", e ainda assim temos uma nítida sensação de solidez das coisas). A transdisciplinaridade não é inimiga da disciplinaridade, mas complementar a essa. A ausência de uma formalização matemática rigorosa não faz com que a biologia ou a psicologia deixem de ser disciplinas científicas. Ocorre portanto uma escala de disciplinaridade, um grau de acordo com a maior ou menor satisfação dos pressupostos metodológicos da ciência moderna.
Os três pilares da transdisciplinaridade são 1) os níveis de Realidade; 2) a lógica do terceiro incluso; e 3) a complexidade; os quais determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar. Da mesma forma que a disciplinaridade, a pesquisa transdisciplinar possui graus variáveis de transdisciplinaridade. Em certo grau, se aproxima mais da multidisciplinaridade (como no caso da ética); num outro grau, se aproxima mais da interdisciplinaridade (como no caso da epistemologia); e ainda num outro grau, chega perto da disciplinaridade.Importante salientar o caráter complementar das abordagens disciplinar, pluridisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar. Um campo em que tal cooperação seria interessante de ser aplicada é no acompanhamento dos agonizantes, ou na morte propriamente dita. Pois, reconhecendo o papel da morte em nossa vida, descobrimos dimensões insuspeitas da própria vida. “A compreensão do mundo presente passa pela compreensão do sentido de nossa vida e do sentido de nossa morte neste mundo”.

sábado, 19 de abril de 2008

Entre o "ter" e o "ser"

Refletindo um pouco mais sobre essa questão do TER e SER, cheguei, num debate por e-mail, a algumas conclusões que, desvinculadas de qualquer rigor científico (o que já aviso não ser uma preocupação específica deste blog), gostaria de compartilhar.
Acredito que o que ocorreu nos últimos 50 anos foi uma revolução tecnológica, a qual colocou no centro das atenções o aumento da produtividade, da eficiência, da instantaneidade, etc. Nunca se produziu tanto conhecimento na história da humanidade quanto no século XX. Ocorre que esta revolução material não foi acompanhada de uma necessária revolução moral. Investiu-se muito tempo e dinheiro no aumento do domínio do homem sobre a natureza, por exemplo, sem que indispensáveis questões de cunho ético fossem levadas em conta. Colocou-se o TER como sonho pessoal - o "americam dream" -, sonho esse que se revela fluido, vazio e o que é pior, inalcançável. Sim, porque nós vivemos pensando que só quando tivermos isso ou aquilo é que seremos felizes. E dias depois de comprarmos "um pedaço do sonho", já estamos vazios novamente, prontos a necessitar de outro pedacinho, só mais um!
Por outro lado, bens imateriais, como o conhecimento, o auto-conhecimento, o equilíbrio, o amor, são coisas impagáveis, alimentos da alma (ou da mente para quem preferir), que não se perdem, que confortam de forma constante e duradoura. Estou lendo um livro (O ócio criativo, Domenico de Masi) no qual ele cita Platão, que conta que Sócrates sentou embaixo de uma árvore, para ler um livro, olhou em volta e se sentiu num estado de bem estar incrível, pois naquele momento percebeu que não precisava de mais nada. Estava adquirindo conhecimento, aumentando sua percepção, e com isso se libertando. O autor então compara a situação com a dos milionários de hoje, "cortando o mar com seus iates e trocentos acessórios", que passam a "precisar" de toda esta parafernália, e de cada vez mais... Talvez por causa desse vazio interior, causado pelo excesso material, que o índice de suicídios entre os mais ricos seja maior do que entre os pobres.
Qual seria o sentido da vida, enfim, se não a evolução permanente, a apredizagem contínua, a transformação pessoal, tudo no sentido de nos fazer mais livres, menos dependentes, mais despertos? Evolução essa que não tem como não ser acompanhada do compartilhamento da aprendizagem, num contínuo ensinar/aprender (relação que se confunde com o próprio viver), por ser algo intrínseco a todos e a cada um, senão, como explicar a a motivação de tantos professores mal pagos, que fazem milagres no país e mundo afora, para compartilhar o pouco (ou muito) que aprenderam? Seria apenas dinheiro, status ou vaidade? Ou uma irresistível intuição lhes move, comparável ao instinto dos animais quando se obrigam a buscar comida, para cumprir os desígnios imperativos de preservação da vida, do crescimento incessante e do semear contínuo, constituindo mesmo uma lei natural?
SER é muito, mas muito diferente de TER. É "SER" de verdade.
Sejamos.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Transporte Público e Cultura

Definitivamente, vivemos na sociedade do TER e não do SER. Caminhando por um dentre os diversos shoppings de Curitiba, tristemente observo pessoas sentadas em seus corredores e praças de alimentação, esperando, falando ao celular, rindo ou chorando. O refúgio do curitibano médio ao barulho e calor da urbe invariavelmente é o shopping, templo do consumo. Alguns poucos trazem um livro à mão, até que um deles sai de sua profunda introspecção imaginativa que só a literatura pode trazer, para reparar que o segurança o observa com um olhar que diz: “Você não vai consumir nada? Porque esta mesa é só para clientes...”
Nesse sentido, não foi sem algum saudosismo que li o excelente artigo publicado por Fernando Mendonça na Gazeta do Povo do dia 21/02/2008, no qual traça um interessante comparativo entre os sistemas urbanos de transporte público de Barcelona e Curitiba. Tive a oportunidade de residir na capital da Catalunha por um breve período, e testemunhei de perto a alta qualidade de vida da qual dispõe seus residentes. De fato, os meios de transporte lá são impecáveis: as linhas de metrô se espalham por toda a cidade, ônibus noturnos levam os jovens da “balada” de volta pra casa de forma segura e confortável, trens rápidos e silenciosos (nos quais se houve música clássica) levam aos destinos mais afastados, sem contar o recém estreado trem-bala que leva direto a Madri. E agora, a exemplo de Paris, as vedetes são as bicicletas. Ter um carro lá seria totalmente desnecessário e até um incômodo. Oxalá possamos ter o nosso metrô de uma vez, e iniciativas como a “bicicletada” recebam a atenção que merecem de nossos governantes.
Mas a comparação entre as duas cidades poderia ser ampliada para a área da cultura. Naquela oportunidade, enquanto vivendo num bairro não tão distante do centro, presenciei no local a construção de uma Biblioteca Pública, que mais parecia um Centro Cultural. Era então possível a qualquer cidadão, bastando apresentar a identidade ou passaporte (independente de ter visto ou não), para receber, na hora, uma carteirinha que lhe possibilitava levar emprestado, simultaneamente, até 7 artefatos do saber, dentre eles livros, filmes em DVD, CD’s de música (proveniente do mundo inteiro), além de utilizar internet banda larga, entre outros serviços. Tudo a custo zero. Suas confortáveis instalações imediatamente viraram ponto de encontro no bairro, aonde jovens iam para estudar, adultos faziam pesquisas e idosos passavam as tardes a ler romances.
Recentemente estive em Belo Horizonte, onde me surpreendeu o magnífico Palácio das Artes, projetado por Oscar Niemayer, em pleno centro da cidade. Em seu interior, anfiteatros, sala de cinema, galerias de arte, um “Centro de Convivência, Informação e Memória” (composto por biblioteca, musicoteca e sala de vídeo), além de jardins utilizados para eventos e um aconchegante Café. Circulavam no verdadeiro centro de cultura, pessoas de todas as camadas sociais e com os mais diferentes interesses.
Não faz muito tempo, ganhamos o Museu Oscar Niemayer, que igualmente se transformou em ponto de encontro nos arredores do Centro Cívico. Não há dúvidas de que o “Museu do Olho” elevou a satisfação em termos de cultura e lazer na região. Mas poderíamos ir além. Dada a amplitude da obra, seus espaços poderiam ser melhor utilizados, conjugando diferentes tipos de manifestações culturais e eventos artísticos. Poderia se instalar ali uma biblioteca, aumentando a interação com o público, fazendo dos que ali conhecessem, freqüentadores contumazes e, por conseqüência, promovendo uma maior integração da população curitibana. O espaço poderia servir de modelo para a construção de outros semelhantes, o que certamente faria Curitiba avançar em todos os sentidos, deixando para trás a fama de inovadora apenas em termos de transporte.
Além do mais, inegável é o fato de que as crianças e jovens brasileiros carecem de espaços públicos coletivos, onde se realizem atividades extracurriculares produtivas, que ofereçam alternativas à tríade tevê-videogame-computador para os mais novos, e bebidas-drogas-violência no caso dos adolescentes. Esses espaços poderiam servir de estímulo para aumentar o interesse da população pela leitura e outras formas de adquirir conhecimento, proporcionando um incremento da cidadania. Além de que, políticas públicas neste sentido contribuiriam para dar maior perspectiva de futuro aos nossos jovens, ajudando a reduzir os alarmantes indicadores de violência que tanto preocupam os habitantes da capital, do estado e do país.